Bons ventos trazem boas mudanças: como novos modelos matemáticos de previsão justificam uma mudança na política brasileira de investimentos em parques eólicos

Texto inspirado no artigo Winds of Change: How Up-To-Date Forecasting Methods Could Help Change Brazilian Wind Energy Policy and Save Billions of US$, de Fernando Bernardes.

Há uma tendência natural mundial de incentivo à produção de energias renováveis e da redução gradativa do consumo de combustíveis fósseis. O Acordo de Paris, firmado em 2015 por diversos países, por exemplo, tem como um dos principais objetivos a redução dos níveis de dióxido de carbono, um gás liberado na queima dos combustíveis fósseis e que é um dos principais componentes que contribuem para o aquecimento global.

Felizmente, do ponto de vista de geração de energia elétrica, o Brasil sempre foi um pioneiro da geração hidráulica, tendo a sua matriz elétrica majoritariamente composta por essa fonte. Por muitos anos a geração hidrelétrica foi suficiente para abastecimento elétrico de todo o país a preços relativamente baixos, devido à fartura desse recurso natural. Entretanto, com a consequente evolução do consumo de energia brasileiro e da consolidação do setor de comercialização de energia elétrica, o uso da água passou a representar um dilema para os geradores: é melhor armazenar a água agora e usá-la no futuro ou é melhor usá-la agora? Em períodos de seca, por exemplo, o custo da água é muito elevado.

Como consequência, em períodos desfavoráveis à geração hidrelétrica, o país buscou abrigo na complementação térmica, que são instalações caras e que fazem uso, em sua maioria, da queima de combustíveis fósseis para a geração de energia elétrica. É nesse contexto que foram inseridas as conhecidas bandeiras tarifárias, que é um mecanismo tarifário para compensar o gasto com o acionamento dessas usinas termelétricas, que são custosas.

Mas moramos em um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza… O Brasil, em especial o nordeste brasileiro, possui um potencial eólico imenso. Dos parques eólicos instalados no mundo em 2016, o Brasil é o que apresentava o maior fator de capacidade, que é uma medida da real capacidade de geração dos empreendimentos eólicos.

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Seguindo a tendência global, o governo brasileiro visa instalar 17GW de capacidade de geração eólica até 2024, o que representa uma expansão de 10,9% da matriz elétrica atual e que é capaz de abastecer 18 milhões de residências. Além disso, no primeiro Leilão de energia eólica brasileiro ocorrido em 2018, o menor preço oferecido pelo ganhador foi de R$ 96,60/MWh, o que representa uma redução de 400%! De maneira geral, isso significa que para cada ano que essa energia estiver disponível, o país irá economizar aproximadamente R$ 45 bilhões de reais! E tem mais, se adotado padrões internacionais de prospecção de parques eólicos, esse número pode dobrar!

Um dos grandes empecilhos para o investimento em parques eólicos no Brasil, entretanto, são limitações burocráticas e de regulamentação. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estabelece que a etapa de prospecção de um parque eólico deve conter 3 anos de medidas anemométricas, isto é, de velocidade do vento, para a previsão da geração elétrica disponível e a consequente análise de viabilidade do investimento. Entretanto, o padrão internacionalmente adotado (IEC 61400) estabelece que apenas 1 ano de medição é necessário.

Um trabalho recentemente publicado com coautoria de membros da Enacom mostrou que não existe diferença significativa entre o comportamento dos ventos no Brasil para o vento dos países que adotam o padrão IEC 61400, não justificando uma coleta de dados em um período de tempo maior que 1 ano. Além disso, o trabalho também propõe uma estratégia para previsão da geração elétrica de um parque eólico que, ao ser alimentada com amostras de 1 a 3 anos, apresenta resultados similares, mais uma vez corroborando o padrão internacional de prospecção e não justificando períodos elevados de amostragem da velocidade do vento.

Essa etapa de 3 anos adotada no Brasil afeta diretamente a rentabilidade do parque e, no pior caso, até a viabilidade do investimento. Para fins de comparação, a taxa de inflação no Brasil em 2015 era de 10,67% e o valor acumulado nos últimos 3 anos foi de 21,21%. Essas elevadas taxas tornam a análise de viabilidade do investimento muito mais difícil, fazendo com o que investidores se direcionem a mercados menos burocráticos.

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O investimento em energias renováveis depende fortemente das políticas energéticas praticadas no país. Por isso é importante que essas políticas sejam repensadas de modo a maximizar o benefício final para a população brasileira.  O trabalho que inspirou este texto fornece alternativas reais para o modelo de previsão atual brasileiro e de como a etapa de prospecção de parques eólicos pode ser melhorada.

Como um país, não podemos deixar essa oportunidade de melhoria passar desapercebida, pois afinal, “quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável”.

Matheus MendonçaEngenheiro Eletricista graduado pela UFMG. Mestrando na área de Otimização e de Ciência de Dados. Líder da Equipe de Otimização da Enacom.

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